Poeta da vez... Fernando Pessoa

Poeta da vez... Ezra Pound


“Ó Harry Heine, cheguei atrasado

para jantar contigo, que diabos!

Quem há de demolir com tanto esmero

a pompa da Filístia e o Lero-lero!" (1911)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Heine, hein?

                                     A tradução de André Vallias (que recentemente trouxe para os leitores da língua portuguesa a poesia de Paul Verlaine) para 120 poemas do alemão Heinrich Heine (1797 / 1856) joga luz sobre este grande poeta pouco conhecido aqui no Brasil. Fonte de inspiração para Karl Marx, Nietzsche, Sigmund Freud, Baudelaire, Eliot, Stevenson, Maiakovski, Machado de Assis, Jorge Luis Borges entre tantos outros, Heine merece ser lido e degustado pelos amantes da boa literatura e poesia. A edição é da Ed. Perspectiva e já se encontra nas nossas prateleiras!







“O rapaz ama uma jovem
Que deseja outro rapaz;
Este de outra se enamora,
Lá se vão ao juiz de paz.

A donzela então decide
Desposar, só por despeito,
O primeiro que ela avista;
O rapaz ficou desfeito.

É uma história tão antiga,
Mas que sempre se renova;
E quem já passou por isso
Pôs seu coração à prova.” (1822)

Teria 'O rapaz ama uma jovem', inspirado Carlos Drummond a escrever o seu 'Quadrilha'?

'João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. '  (1930)


Outro poema de Heine que acabou marcando profundamente a literatura brasileira foi 'NAVIO NEGREIRO'. Abaixo transcrevemos parte do longo e emocionante poema, antecedido por um trecho de 'Memorial de Aires' do nosso Machado:

13 de maio.

Enfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do Senado e da sanção da Regente. Estava na Rua do Ouvidor, onde a agitação era grande e a alegria geral.
(...)
Ainda bem que acabamos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os atos particulares, escrituras e inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia. A poesia falará dela, particularmente naqueles versos de Heine, em que o nosso nome está perpétuo. Neles conta o capitão do navio negreiro haver deixado tresentos negros no Rio de Janeiro, onde ‘a casa Gonçalves Pereira’ lhe pagou cem ducados por peça. Não importa que o poeta corrompa o nome do comprador e lhe chame Gonzáles Perreiro; foi a rima ou a sua má pronúncia que o levou a isso. Também não temos ducados, mas aí foi o vendedor que trocou na sua língua o dinheiro do comprador.
                                                     (Machado de Assis; Memorial de Aires, 1908)


Navio Negreiro

I
Sr. Van Koek, o sobrecarga,
Mergulha em contas na cabine,
Calcula os gastos da empreitada,
Depois o lucro ele define.

‘Pimenta e pelas de borracha,
Marfim do bom e ouro em pó –
Tonéis e caixas – mas eu acho
A carga escura bem melhor.

Seiscentos negros lá do Níger
Que barganhei no Senegal;
Tendões de aço e pele rija,
Tal qual estátuas de metal.

Troquei por caixas de birita,
Contas de vidro e armamento;
Caso a metade sobreviva,
Hei de lucrar uns mil por cento.

Se ao cais do Rio, em bom estado,
Levar trezentos, venderei
Cada cabeça a cemducados
À Casa Gonçalves Pereira.’

(...)

Praticumbum prugurundum –
Se arrasta a dança noite afora.
Na gávea, o sobrecarga então
Faz o sinal dacruz e ora:

‘Deus, pelo amor de Jesus Cristo,
Me poupa a vida da negrada!
Pecam por serem quase bichos –
Perdoa – não sabem de nada.

Cristo Jesus, lá do teu horto,
Salva meus pretos, eu te peço!
Se não chegar metade ao porto,
Deste negócio eu me despeço.’ (1853)



Heine, o poeta dos contrários te aguarda na Boutique do Livro.

sábado, 19 de março de 2011

Boutique do Livro - 20 anos de histórias...

Cem anos sem o Machado. Mas que Machado?
(publicado no informativo Matercabo em setembro / 2008)

 Joaquim Maria, o Machado de Assis.
                           No dia 29 de setembro de 1908, morria em casa, no Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro, Machado de Assis. Assim como Brás Cubas, um de seus mais fascinantes personagens, Machado assistiria, do outro lado da vida, a sua transformação de maior escritor da sua época em maior escritor brasileiro de todos os tempos. Considerado o nosso Camões, e por muitos estudiosos como um dos maiores representantes da língua portuguesa no mundo (Harold Bloom, o famoso crítico americano o coloca como um dos dez maiores gênios da literatura universal de todos os tempos!), Machado foi muito biografado e estudado nos centros acadêmicos brasileiros e é leitura obrigatória em quase todos os vestibulares do país. Mas pára por aí. O “Bruxo do Cosme Velho” é praticamente  um desconhecido da grande massa de leitores seus conterrâneos e um total estranho para os não leitores. Acredito que lá de onde ele está, não se surpreenda com isto (“Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar”),  mas também satisfeito não deve estar (“Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado.”). Mas, por que, um gênio como Machado, saudado por tantos estudiosos de tantos países não tem o reconhecimento merecido no seu país?
                             “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”. A ironia fina e cínica do autor de Dom Casmurro talvez explique o seu ocaso, mas nossa memória de quarta-feira de cinzas não é a única explicação para seu esquecimento. Vou acrescentar ao apagador de lousas outros dois motivos. O primeiro é um tanto óbvio: num país onde se valoriza mais a televisão que a literatura é natural que os ‘artistas’ do Pânico na TV ou a surreal mulher melancia sejam mais conhecidos e admirados que os nossos escritores. Causaria mesmo espanto se fosse o contrário! Se apesar do bombardeio de futilidades com que nos assolam a partir das tvs, rádios, internet, revistas e (onde vamos parar?) livros, ainda assim admirássemos os grandes artistas e a grande arte ( e falo de grandes artistas e grande arte aqui de uma maneira bem ampla). Além disso acredito também no despreparo de grande parte dos professores de literatura nas nossas escolas e faculdades. Para fazer nascer o gosto pela arte é necessário antes de tudo gostar de arte. Se o professor não é apaixonado pela literatura, como leciona-la? Se não agrada ao professor de literatura os livros do Machado não seria melhor que fosse ele ensinar química ou matemática? Felizes os estudantes que dão a sorte de encontrar pelo caminho professores apaixonados pelos grandes autores. Eu tive esta sorte e sou muito agradecido a eles.
                             Viúvo, sem filhos (‘Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria’) e cansado (‘tudo cansa, até a solidão’),  a cem anos morria o Machado. E desde então nos espera para um bom bate-papo nas páginas de seus livros. Vamos a ele!


As revoluções ( nem tão ) silenciosas da arte...

                             Acabei de ler um livro bem interessante com depoimentos de várias personalidades brasileiras ligadas a música sobre qual foi o disco mais importante na sua vida. Gente de gerações e estilos diferentes mas com uma história em comum: em determinado momento uma canção fez tudo mudar, marcando um recomeço, uma nova fase, uma ‘mudança no curso da navegação’. O nome do livro é ‘Noite passada um disco salvou a minha vida’e achei fantástico conhecer mais algumas histórias sobre a força da arte na vida da gente. É sempre revelador ver o que pode acontecer quando somos tocados por essas criações maravilhosas. E não são poucas  as experiências que nos mostram o poder revolucionário da arte.
 
                             Li uma vez, no livro ‘Palavras musicais’ do jornalista mineiro Paulo Vilara,  sobre a parceria musical de Milton Nascimento e Marcio Borges, uma das que mais gosto na MPB.  Os dois já eram amigos, mas começaram a compor juntos após assistirem ao filme Jules et Jim, de Truffaut, uma história sobre amizade e amor contada com  beleza e sensibilidade raras. Assistiram a três sessões seguidas num cinema de BH, e depois, lápis e violão nas mãos escreveram parte da trilha sonora da vida de muita gente por aí... O Angeli, um dos mais importantes cartunistas do Brasil, também conta que se não fosse o riff de guitarra matador de ‘Satisfaction’, dos Rolling Stones, Rê Bordosa, Wood & Stock e tantos outros personagens da sua lavra não existiriam.  Mas há um caso        que eu vivi, e que acho bastante representativo desta força criadora (e destruidora, por que não?) da arte. Era 1992 e desde o início daquele ano pipocavam na imprensa nacional denúncias de corrupção contra o presidente da república. Como de costume, nada do que ficávamos sabendo nos comovia. Era como se toda aquela sujeira estivesse acontecendo em um outro país. Até que no dia 14 de junho estreou na TV a minissérie ‘Anos Rebeldes’, sobre a ditadura militar brasileira iniciada em 1964. Então as passeatas e movimentações contra o regime de exceção dos estudantes da década de 60, além das canções de Caetano, Gil, Chico e Vandré invadiram a vida dos estudantes da década de 90 e o Brasil foi tomado por jovens de ‘cara pintada’ pedindo o ‘impeachment’ do governo Collor de Melo. O último capítulo da série coincidiu com o último discurso do presidente numa sexta-feira, quando pediu que os brasileiros não o deixassem só e que saíssem no domingo próximo  vestidos de verde e amarelo em sinal de apoio ao seu governo. Aquele domingo ficou conhecido como ‘domingo negro’, e o resto é história...

                             Eis aí o perigo da arte! Quando você menos espera ela te pega e sacode e deixa de pernas para o ar tudo aquilo que você conhecia. Abre portas e janelas e te mostra uma outra realidade. Aí já não há mais o que fazer além de atravessar a porta e continuar. Até que outra canção, outro filme, outro livro venha de novo mudar o curso de tudo!

Elisa Lucinda e Geovana Pires falam Adélia Prado

Boutique do Livro - 20 anos de histórias...

... Pocket show com Os Alkmyxtas em 2010...



...Lançamento do livro "O Sabiá e o Abacateiro" de Leonardo Letra na  'Hora do Conto'...





...Adriana Versiani, Marcio Almeida e Dieter Roos em manhã de poesia e festa...



... o café...




...e a 'Hora do Conto' nos seus primórdios.





Opa! Oficina à vista!!!


'O GESTO NA NARRATIVA ORAL' , oficina com o mímico Jiddu Saldanha, do Rio de Janeiro, especial para contadores de histórias e outros tipos de mentirosos - mas que tenham bom caráter - de plantão. Não dá pra perder!!! clique na iamgem abaixo para mais informações: